fotografia | sissy eiko

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fotografias | sissy eiko

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fotografia | sissy eiko

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“Eu sou prisioneira da noite. (…) Quero os caminhos da madrugada e estou presa, quero fugir aos braços da noite e estou perdida.”- Henriqueta Lisboa

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Quebra a madrugada um seixo
e ela afrouxa, instável em rinhas.
Se cruzo os dedos, é por despeito
e imagino o que resta inteiro.
Fio a fio teço com seus cabelos
pontos cruz, finos veios.
E neste emaranhado
é que me desfaço, fora dos eixos.
Negra, intensa madrugada
alinhavada num lampejo.
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Elisa Andrade Buzzo

fotografia | sissy eiko

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sèrieAlfa.art i literatura Núm. 45
València i Quebec, primavera 2010   ISNN 1989-3590

a cura de Joan Navarro

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[Zona de deslumbramento · Quatro poetas do Québec]

Geneviève Blais│Jean-François Poupart │Louis-Jean Thibault │Kim Doré

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Fotografies de  Sissy Eiko

http://seriealfa.com/home.htm

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fotografia | sissy eiko

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Uma noite, você vai querer levantar bem alto a saia, que voamos, ou
quase – qualquer coisa do gênero.
Eu não tenho nada de aéreo, verdadeiramente, mas você não vai querer acreditar.
Meus gestos são longos.
Tenho uma vontade frequente de tomar um ar, dar uma volta.
Anda perto.
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Tão logo me ensina o nome das coisas.
Me ensina o som do corpo após a queda.
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Eu já esqueci tudo.

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O ponto adiante. A partir daqui procuramos equilíbrio.
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Para a ocasião, você volta a cabeça, olha para baixo.
Você se subtrai.
Você espera. As coisas.
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Cair se pode sempre. Enganar.
Quase sempre.
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Mais alto, sua mão.
A vez em que eu me sentei, o tempo transbordava.
E eu junto.
De resto, espero que a gente se precipite.
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Ao mesmo tempo, na frente e atrás. As barreiras.
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Galope. Estrada, rapidez. A tela separa som e imagem.
Se adivinha, se imagina.
Se rola. O chão passa, os pedregulhos sobre a pele. Marcada.
E respirar, longamente.

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Nascida em 1977, Geneviève Blais fez mestrado em literatura. Seu primeiro livro, L’incident se répète, foi publicado em 2007 pela Poètes de brousse. Le manège a lieu, seu último livro, publicado em abril de 2009 no Québec, nasceu de uma estada de dois anos na China.
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[Traducció de Juliana Bratfisch

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fotografia | sissy eiko

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Código genético da guerra
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Nascer em Birkenau ou beber champagne rosé em Paris
nesta hora precisa o homem suplicando o ar
é uma grande guerra de peregrinos e de ignorância
Heidegger num uniforme da SA fala do tempo
é nossa vala comum e suas abóbadas coloridas
tudo se afasta de Renoir do riso das damas da civilização
Manet Monet Modigliani Mozart
Goebbels Goering Himmler Hitler
Donatello Fra Angelico Botticelli Michelangelo
Pinochet Khomeiny Milosevic Staline
Giacometti Raphaël Rembrandt Gauguin
Mussolini Franco Salazar Pétain
Bach Beethoven Chopin Rimbaud
Pol Pot Mao Ben Laden Sharon Bush
Stravinski Strauss Van Dyck Van Gogh
Kadhafi Bokassa Stroessner Chiang Kai-Shek
Neruda García Lorca Asturias García Márquez
quantos Saint-Exupérys é preciso pra preencher Auschwitz?
a arte não muda as coisas mas o horror a inspira
fazer vitrais com os mártires
os poetas da América são velhos
egoístas ou muito inconscientes
os poetas do Iraque são mortos ou presos
o mais cruel restará vivo
tudo se afasta de Renoir
do riso das damas rosés e do champagne
tudo se aproxima da nossa civilização
o sangue é inodoro

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Olha aqui aqui sua boca e o sol desesperado
o oceano em Montréal
o céu com pontos negros
e a pena de vir ao mundo
de andar como
dez milhões de povos feridos
sobre um grande rio
de manchas e convulsões
brônquios e luzes
é uma península
repleta de répteis
uma mancha enorme
entre as omoplatas
uma grande mancha como uma vila
e os filhos para te dar continuidade
mil vezes lavar as mãos
botar minas
e lentamente arrancar o coração

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Nascido em Montréal em 1968, Jean-François Poupart possui um doutorado em Letras Modernas pela Sorbonne (Université de Paris-IV), que trata do silêncio na obra de Yves Bonnefoy. É editor dos Poètes de Brousse e professor de literatura, mas também viticultor, músico e letrista. Ele comanda os Cabarets Poètes de Brousse junto aos músicos de Mutante Thérèse desde 1997. Autor de Morsures de terre (1997), Nietzsche on the beach (1999), L’étrange lumière des mourants (2002), Tombe Londres tombe (2006) além de um ensaio e de entrevistas sobre a obra de Yves Bonnefoy.
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[Traducció de Juliana Bratfisch

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fotografia | sissy eiko

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A porta
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O tempo é instável; a porta da casa
não para de se entreabrir para deixar aparecer
o teatro distante das montanhas
onde passa e repassa um banco de nuvens fugindo.
Todo dia, se deverá descer
para ir fechá-la, voltar em seus passos
frear nos trabalhos, pacientes e discretos
as horas giratórias, o desejo de partir
além. Na altura das vidraças,
a cidade ostenta suas avenidas,
mas é aqui que se deve viver, nesse reduto
de luz, com suas palmas, sua bondade.
Não acrescente mais nada neste momento preciso
a porta está fechada, a mancha de sangue,
bem nítida, que o sol projeta contra a mesa
é seu único agouro, o suficiente.

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Para a sequência das coisas
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A lua está à distância e a poeira
tomba sobre os objetos por um tempo partilhado.
Toda a noite vejo a franja do horizonte
como observamos ao longe
o mar se debater: paralisado
e na insuficiência das palavras.
Sob as pontes entendemos o rio passar
com suas ondas verdes, azuis e ferrugem;
vêm se fraturar
contra as rampas de pilares,
e compreendo que é preciso novamente
me desfazer de minhas roupas
como fazemos ao lado de uma mulher
antes de nos lançar ao escuro e à voragem.

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Nascido em 1979, Louis-Jean Thibault ensina literatura no curso de ensino médio de Sainte-Foy. Publicou quatro coletâneas de poesia, entre elas Géographie des lointains, suave e profunda meditação entre o mundo próximo e o horizonte metafísico da vida.
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[Traducció d’Elisa Andrade Buzzo

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fotografia | sissy eiko

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não mais precisar sofrer para alinhar os verbos
um pouco de vento é o suficiente para o poema se quebrar
põe ordem em suas veias
analisa a pegada deixada entre seus rins
e no meio do crânio os tornados
também têm um centro o olho do crash
na razão olho da terra pousado sobre nós
a prova que nossas carcaças se esvaziam e eu
que não tenho mais fôlego planto os cacos

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na vela como as moscas
nos esmagamos no alvorecer
e nossos erros se imprimem no fundo
da ruela um pouco de luz jogada
contra o muro um pedaço de carne crua
no rosto branco das luminárias
acordamos em Lascaux uma agulha
em cada braço acordamos sozinhos
ainda com a sombra das sombras e
o desejo de ser um animal o desejo de ser

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Nascida em Montréal em 1979, Kim Doré estudou Letras na UQAM (Université du Quebéc à Montréal). Em evidência desde sua primeira coletânea, La dérive des méduses, editada em 1999, Kim recebeu o prêmio Émile-Nelligan em 2005 com Le rayonnement des corps noirs, publicado na Éditions Poètes de brousse, que de início foi uma coleção de poesia em Intouchables antes de se tornar uma editorial dedicada à jovem poesia. É sua coeditora com o poeta Jean-François Poupart.
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[Traducció d’Elisa Andrade Buzzo

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fotografia | sissy eiko

arte | sissy eiko

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Minha janela redonda
das coisas que existem e não existem,

onde vejo namoros ardentes de colegiais,
teatro em plena rua,
brigas de casais, furtos à meia-lua.

Fantasio outras ruas extemporâneas
com olhos biônicos de câmera de vigilância.

Monitoro vidas paralelas a essa
porque o tempo nesta janela é o do pensamento,
corre na velocidade das nuvens
e nunca se reconfigura como da primeira vez.

Minha janela redonda,
das coisas que se vêem e que não se vêem.

Elisa Andrade Buzzo

arte | sissy eiko   texto | elisa andrade buzzo

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http://projetopisc.wordpress.com/

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pisc! é um projeto idealizado por Sissy Eiko e muitos outros sonhadores que abraçaram a causa. Começou com um fanzine recheado de coisas chamado Sonhos, depois um menor chamado Cochilo, e então saiu o pisc!, um pequenino fanzine 9x9cm, mas cheio de experimentações gráficas. Desta vez, seguimos com o nome pisc!, porém no formato cartão postal. São 6 postais no tamanho 10x15cm, 300gr, colorido frente e verso, com a frente brilhante! Cada postal foi criado por uma dupla de artistas: o poeta escreve, passa para o ilustrador desenhar; depois, o ilustrador desenha e passa para o poeta discutir sobre, bater o martelo e (eba!) postal pronto!
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Nessa coleção contamos com:
Artes – Jozz, Sissy Eiko, Dann Thomas, Gui Ortenblad, Juliana Carvalho e Victor Silva
Letras – Alejandro Farias (argentino), Ivan Antunes, Elisa Andrade Buzzo, Júlio Castro e Ana Paula Ferraz
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Faremos o lançamento da coleção pisc! de postais no dia 18 de dezembro às 19hs
(na Livraria HQMix – Praça Roosevelt, 142 – SP)

sissy sentada

Minha formação em arquitetura levou-me à descoberta desse modo de representar uma idéia, de transformá-la em real, e de que maneira esta se torna mais concreta aos olhos de quem recebe. Ter a fotografia como um meio de trocar informações, sendo a concretização do imaginário. O desafio é a construção dessa imagem pensada, que reencontro dentro de mim. Um olhar constante do que está ao redor fundido com ilustrações, e desta maneira trazer à tona aquela magia de se surpreender e maravilhar-se com uma imagem que nos leva a recordar sentimentos e situações vividas no dia-a-dia. As “delicadezas” são um tantinho disso. Como se eu pudesse representar a brisa gostosa sobre o rosto através dessa montagem de fotografia+ilustração. Essa mistura de representações é uma busca experimental pela possibilidade de compartilhar experiências-olhares, tornando-a única, pois cada um que a veja s e recordará com carinho de alguma lembrança distante.

A realidade se dissolve neste desfazer-se fazendo, como se fosse possível tirar uma casca velha e pedregosa e revesti-la com uma penugem leve.” Elisa Andrade Buzzo