fotografia | sissy eiko

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“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.

[…] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?

O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

Clarice Lispector

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fotografia | sissy eiko

fotografia | sissy eiko

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Suponho que me entender não é uma questão de inteligência

e sim de sentir, de entrar em contato…

Ou toca, ou não toca.

 

Clarice Lispector

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fotografia | sissy eiko

Não entendo (de Clarice Lispector)

No Programa Provocações por Antônio Abujamra

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples estado de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

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fotografia | sissy eiko

“Sinto que já cheguei quase à liberdade.

A ponto de não precisar mais escrever.

Se eu pudesse, deixava meu lugar nessa página em branco cheio do maior silêncio.”

“Ninguém me ensinou a querer, mas eu já quero.”

Clarice Lispector

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fotografias | sissy eiko | resultantes do curso do Gal Oppido

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Quero páginas em branco!

Vou criá-las para depois enchê-las de imagens.


Não quero ter a terrível limitação

de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.

Eu não: quero uma verdade inventada.

Clarice Lispector

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fotografia | sissy eiko

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Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:

pensava que, somando as compreensões, eu amava.

Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

Clarice Lispector

fotografia | sissy eiko

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“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

Clarice Lispector

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fotografia | sissy eiko

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“Tenho várias caras.
Uma é quase bonita, outra é quase feia.
Sou um o quê?
Um quase tudo.”


Clarice Lispector

nos andaimes da vida

sissy eiko . 2008

Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó-de-arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes de sua vida.

Clarice Lispector, In “Laços de família” – Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998